História da Instituição


A alegria de trabalhar em companhia

O Centro Social da Musgueira sempre foi um projecto de muitos… Desde a sua génese em 1963, quando um grupo de muitos voluntários impulsionados pelo Pe. José Manuel da Rocha e Melo s.j. decide “deitar mãos à obra” e apoiar a população do que viria a ser o Bairro da Musgueira Norte, não mais parou de conquistar simpatizantes e amigos, pessoas conhecidas e anónimas, que têm mantido de pé um ideal e sobretudo, o têm tornado realidade.

A zona da Musgueira integrava, na altura, uma grande área periférica da cidade de Lisboa, deixada livre de construções por constituir zona de protecção ao aeroporto da Portela.

Esta circunstância possibilitou a fixação desde 1961 de um elevado número de famílias provenientes de locais diferenciados. Todas elas vinham de um desalojamento imposto que se prendia com catástrofes naturais (aluimento de terras, incêndios) ou por necessidades urbanísticas (população oriunda da Av. de Ceuta e do Alvito devido à construção dos acessos à Ponte sobre o Tejo). A migração sobretudo do interior centro e norte do país foi também elevada. A ocupação teve sempre um carácter provisório.

As precárias condições de habitabilidade, as carências sociais dos novos residentes e a dificuldade da CML em assegurar a essas famílias condições minimamente aceitáveis, determinaram a intervenção de outras entidades, nomeadamente, a do Centro Social da Musgueira.

O Pe. José Manuel Rocha e Melo conseguiu seduzir um grupo de jovens voluntários e juntamente com eles, dedicou-se a ajudar os mais necessitados nas formas mais variadas, desde a reparação de barracas, o fornecimento de refeições, a implementação de Salas de Estudo, a organização de uma Cooperativa de Consumo, até aos mais diversos trabalhos de apoio.

Em 1981, segundo o XII Recenseamento Geral da População, a população residente na Musgueira Norte (bairro com aproximadamente 20 ha) era de 5219 indivíduos, correspondendo a 1364 famílias, das quais 47,5% viviam em barracas. O bairro mostrava elevados valores de densidade populacional e apresentava problemáticas referentes aos actuais flagelos sociais marcados pela pobreza e exclusão social: toxicodependência, baixo nível de escolaridade e qualificação profissional, trabalho precário, agregados sem qualquer ocupação, entre outros.

O Centro Social centrou-se não só na construção e viabilização de alguns equipamentos mas também na mobilização de esforços para sensibilizar as entidades competentes para a necessidade de criar infra-estruturas no bairro. A sua acção nos campos da habitação, saúde, educação, nas actividades sócio-culturais, económicas e religiosas, moldaram profundamente o bairro.

A promoção do trabalho entre as instituições do Bairro, o encontro de parcerias, foi sempre uma tónica presente no dia a dia.

Nunca foi um trabalho isolado. Os primeiros pavilhões de lusalite deram lugar aos actuais edifícios, construídos com a ajuda da população. Os serviços prestados pelo Centro Social foram progressivamente adaptados às necessidades dos moradores, acompanhando a sua evolução. Assim surgiram o A.T.L., as Colónias de Férias, o Convívio para a 3ª idade, a Associação de Cultura e Recreio (com actividades muito variadas), as Actividades de “Porta Aberta”, os Campos de Férias, os Campos de Férias Familiares, o Atendimento Social e a Catequese (década de 60). Depois surgiu o Jardim de Infância, e mais tarde o Centro de Dia para os idosos (1985) e o Serviço de Apoio Domiciliário aos acamados ou dependentes (1989). Em 1987, funcionaram cursos de formação profissional subsidiados pelo Fundo Social Europeu. O Centro Social proporcionava ainda, reuniões de moradores, com representantes de cada uma das ruas e dos lotes, onde eram discutidas as necessidades mais prementes de cada um e os moradores se envolviam activamente na sua resolução.

Foi também com muitos moradores que começou a ser criado o corpo de funcionários de uma grande equipa que diariamente e até hoje, continua a trabalhar para servir. Para servir bem, com qualidade e com regras, com muito respeito por quem solicita os seus serviços. Sem nunca deixar de contar com o apoio de voluntários e do generoso auxílio financeiro de muitos particulares, o Centro foi-se progressivamente dotando de uma estrutura técnica profissionalizada. Mais uma vez, são muitos braços. Esforçados, dedicados, com a devoção daquele que sente que é uma peça valiosa numa grande engrenagem. Mas como quem corre por gosto não cansa, são conhecidos e reconhecidos pela sua alegria no trabalho.

A missão continua a ser a mesma: a promoção social e humana, a capacitação, o desenvolvimento, a aprendizagem em conjunto, a integração.

A realidade é que felizmente mudou. A Musgueira, sinónimo muitas vezes de degradação e marginalidade, já não existe. Deu lugar a condições dignas de habitabilidade, a uma cidade nova que obedece a um plano urbanístico, e que quando finalizada, será ela própria uma referência. Os seus antigos moradores têm hoje outras oportunidades e enfrentam desafios novos. Certamente as mudanças são muitas e requerem algum tempo de treino, mas têm a oportunidade de tentar… O Centro Social da Musgueira continua apostado nessa tentativa de desenvolvimento, de integração. Assim, continuará a adaptar as suas respostas sociais às necessidades de cada momento, dirigidas agora a uma população, não da Musgueira, mas da Alta de Lisboa.

Actualmente, e desde 1985, é presidido pelo Pde. Afonso Herédia, s.j.. Conta com 100 crianças no Jardim de Infância e 20 no ATL. O Centro de Dia acolhe diariamente 60 idosos e o Serviço de Apoio Domiciliário apoia 50 dependentes. No trabalho com os jovens, dinamiza uma Mediateca com múltiplas actividades de educação não formal dirigidas a cerca de 200 jovens e proporciona Salas de Estudo a 60 jovens que encontram um apoio escolar do 3º ao 12º ano. O Centro mantém também, um serviço de atendimento social à Comunidade e promove campos de férias, acções de formação e inúmeros projectos. Proporciona o serviço religioso na sua Capela aos domingos e mantém a catequese.

Todas as actividades em curso são comparticipadas pelos utentes, à medida das suas possibilidades. Este factor, além de uma questão de sobrevivência, corresponde desde a primeira hora a uma filosofia e pedagogia da Instituição.

O Centro Social da Musgueira pertence a várias redes de parceria e desenvolve, em cada uma delas, diversas actividades e projectos, em parceria com outras instituições. Assim, com o Grupo Comunitário da Alta de Lisboa (31 entidades), desenvolve Actividades Comunitárias diversas no âmbito da escolaridade e da coesão social; com o Grupo de Instituições de Apoio a Idosos da Alta de Lisboa realiza actividades comunitárias para idosos; com o Programa Escolhas 4ª Geração (Consórcio de 7 entidades) desenvolve o Projecto “Emprega o Futuro” no âmbito da Formação Profissional e Empregabilidade de Jovens; com o movimento cívico Viver na Alta de Lisboa promove um projecto de integração e animação sócio-cultural: o “CineConchas”, um festival de cinema ao ar-livre que já é um evento de referência.

O Centro Social da Musgueira, enquanto Instituição que se quer ao serviço de uma Comunidade, vive no momento um desafio e uma esperança: a de vir a ter as condições que lhe possibilitem dar continuidade ao seu projecto de promoção e apoio social a uma Comunidade, seja ela mais a norte ou mais a sul.

Prolongam-se desde 1995 as negociações do realojamento da Instituição. Apenas as valências de Centro de Dia e de Serviço de Apoio Domiciliário se encontram a funcionar em novas instalações no Bº da Cruz Vermelha desde 2001.

A construção das novas instalações do Centro Social da Musgueira que acomodarão as crianças e jovens tem sido um processo difícil. As mudanças de executivos camarários originaram várias hesitações e opções diferentes de localização e de projectos.

Parece que, finalmente, o início das obras está próximo e que as instalações terão muita dignidade. O seu arranque será um momento histórico e dará a todos, funcionários e utentes, alento para suportar mais um ano o abandono a que foi votado, e as dificuldades no acesso ao Centro que, com verdadeira heroicidade, diariamente têm que ultrapassar.

A vontade política não tem acompanhado a urgência em concretizar o sonho, cuja necessidade todos reconhecem. No entanto, o futuro será moderno, desafiante, adaptado à nova realidade humana, de integração e desenvolvimento. Um espaço onde todos são convidados a pensar, propor, dinamizar e participar.

E mais uma vez…hoje, tal como ontem, somos muitos. E com muita vontade de fazer bem.

O Centro Social da Musgueira vai a caminho dos seus 48 anos…
Muitos Parabéns!